Proposta de intervenção: os cinco elementos que a banca procura

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Estudante escrevendo em um caderno aberto sobre a mesa

A proposta de intervenção é a parte mais previsível da redação do Enem. Ela vem sempre no fim, cobra sempre as mesmas coisas e é avaliada por uma competência inteira, que vale 200 pontos. Mesmo assim, é onde muita gente entrega menos do que poderia, porque escreve uma frase de boa vontade em vez de uma proposta.

"O governo deve investir em educação para conscientizar a população." Essa frase aparece em milhares de redações por edição. Ela tem um agente vago, uma ação sem contorno, nenhum meio e nenhum detalhe. É simpática e vale pouco.

O que a competência 5 pede

A competência 5 avalia a elaboração de uma proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos. São dois requisitos: a proposta precisa resolver o problema que o seu texto discutiu, e precisa ser compatível com os direitos humanos.

O primeiro requisito é mais traiçoeiro do que parece. Se os dois parágrafos de desenvolvimento trataram da falta de infraestrutura e a conclusão propõe campanhas de conscientização, a proposta não conversa com o texto. Ela pode estar bem escrita e ainda perder nível, porque resolve outro problema.

Os cinco elementos

Uma proposta completa responde a cinco perguntas:

  • Agente: quem vai executar. Ministério, secretaria estadual, escola, mídia, organização da sociedade civil, família. Quanto mais preciso, melhor.
  • Ação: o que será feito. Ampliar, criar, fiscalizar, capacitar, distribuir.
  • Meio ou modo: por qual caminho a ação acontece. Por meio de edital, de parceria, de verba específica, de inclusão no currículo.
  • Finalidade: para que serve. O efeito esperado sobre o problema.
  • Detalhamento: o aprofundamento de qualquer um dos outros quatro. É o que separa uma proposta boa de uma proposta completa.

O detalhamento costuma ser o elemento esquecido, e é o mais barato de incluir: basta explicar melhor um dos elementos que você já escreveu, em vez de acrescentar um novo.

A mesma proposta em três versões

Veja o efeito dos elementos sobre a mesma ideia, num tema sobre acesso à leitura:

Versão frágil. "O governo deve investir em leitura para melhorar a educação do país." Agente genérico, ação sem contorno, sem meio, sem detalhamento.

Versão mediana. "O Ministério da Educação deve ampliar o acervo das bibliotecas escolares, a fim de aproximar o estudante do livro." Agente definido, ação clara, finalidade explícita. Falta o meio e falta detalhamento.

Versão completa. "O Ministério da Educação, em articulação com as secretarias estaduais, deve ampliar o acervo das bibliotecas escolares por meio de um edital anual de compra cuja curadoria seja feita por professores da própria rede, que conhecem o repertório dos alunos, a fim de garantir que o estudante encontre na escola o livro que não encontra em casa."

A terceira versão não é mais bonita que a segunda. É mais específica: tem agente, ação, meio, finalidade e um detalhamento (quem faz a curadoria e por quê). O tamanho cresceu poucas linhas, e a competência sobe de faixa.

O limite dos direitos humanos

Propostas que violam os direitos humanos não são aceitas. Isso inclui qualquer sugestão de punição física, de supressão de direitos de um grupo, de censura ou de exclusão. Desde 2018, uma proposta nessas condições não zera mais a redação inteira: zera a competência 5. Continuam sendo 200 pontos perdidos de uma vez.

Na dúvida, o teste é simples: se a sua proposta trata alguém como problema a ser eliminado em vez de pessoa a ser incluída, ela não passa.

Os erros que mais custam

  • Agente onipotente. "A sociedade deve" ou "é preciso que se faça" não indicam ninguém. Dá para escrever "as escolas da rede pública", "as secretarias municipais de saúde", "as plataformas digitais", e custa as mesmas linhas.
  • Verbo sem objeto. "Conscientizar" e "investir" precisam vir com o que e como. Conscientizar por qual meio, investir em quê.
  • Proposta desconectada. A intervenção precisa atacar o problema que o seu texto construiu, não um problema vizinho.
  • Proposta inviável. Propor que o país inteiro mude de modelo econômico em um parágrafo não demonstra domínio, demonstra falta de recorte.
  • Proposta sem espaço. Quando a estrutura do texto estoura, a conclusão fica com três linhas e a proposta vira uma frase. É um erro de administração de linha, não de conteúdo.

Um repertório de agentes

Metade das propostas fracas começa na mesma dificuldade: na hora, não ocorre ninguém além do governo. Vale ter uma lista mental pronta, porque ela serve para qualquer tema:

  • Poder público federal: ministérios, agências reguladoras, Congresso quando a proposta envolve legislação.
  • Poder público local: secretarias estaduais e municipais, que costumam ser o agente mais verossímil em temas de saúde, educação e assistência.
  • Escola: inclusão de um conteúdo no currículo, projeto interdisciplinar, formação de professores.
  • Mídia e plataformas digitais: campanhas, moderação, selo informativo, uso de algoritmo de recomendação.
  • Organizações da sociedade civil: ONGs, conselhos, associações de bairro, sindicatos.
  • Setor produtivo: empresas, quando o problema passa por cadeia de produção, consumo ou emprego.

Combinar dois agentes costuma funcionar melhor do que escolher um só, porque deixa a execução mais plausível: um financia, outro executa, um terceiro fiscaliza.

Um modelo mental para a hora da prova

No rascunho, antes de escrever a conclusão, anote cinco palavras numa linha: quem, o quê, como, para quê, detalhe. Preencha as cinco em forma de tópico. Só depois transforme em texto corrido.

O procedimento leva menos de dois minutos e impede o erro mais comum da prova, que é começar a escrever a conclusão sem saber qual é a proposta e descobrir isso no meio da frase.

O que isso muda para mim

De todas as competências, a quinta é a que mais recompensa preparação mecânica. Os critérios são explícitos, não dependem de talento e não mudam de tema para tema. Quem treina os cinco elementos em dez conclusões diferentes chega ao dia da prova com um procedimento pronto, e não com uma esperança.

As outras quatro competências estão detalhadas no guia da redação do Enem, e o que trazer para fundamentar os argumentos está em repertório sociocultural.

Fonte

Inep: página oficial do Enem

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