Repertório sociocultural na redação do Enem: como usar sem forçar

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Jovem lendo um jornal sentada em um banco, com a mochila ao lado

Todo ano acontece a mesma cena na correção do Enem: milhares de redações abrem com a mesma citação, do mesmo autor, encaixada no mesmo lugar, sobre temas que não têm nada a ver entre si. A citação está correta, o autor existe, e mesmo assim ela não rende ponto nenhum.

O motivo é que a competência 2 não premia citação. Ela premia repertório sociocultural produtivo, e a palavra que importa nessa expressão é a última: o conhecimento que você traz precisa fazer alguma coisa dentro do seu argumento.

O que conta como repertório

Repertório é qualquer conhecimento de fora dos textos motivadores que ajude a sustentar o que você defende. Ele pode vir de muitos lugares:

  • Dados e pesquisas de instituições reconhecíveis, como IBGE, Ipea, Fiocruz, OMS, ONU.
  • Legislação: a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Geral de Proteção de Dados, o Código de Defesa do Consumidor.
  • História: processos e períodos, não efemérides soltas.
  • Literatura, cinema e música, quando a obra tem relação real com o problema discutido.
  • Conceitos de ciências humanas: sociologia, filosofia, geografia, economia.
  • Atualidade: um acontecimento recente, desde que você saiba o que ele significa e não apenas que ele existiu.

Perceba o que não está na lista: frase de efeito sem autor, "segundo pesquisas" sem dizer quais, e número inventado. Dado falso é pior do que dado ausente, porque o corretor reconhece.

Os três filtros de um repertório que funciona

Antes de usar uma referência, passe-a por três perguntas:

  • É legitimada? Vem de uma fonte que o leitor reconhece como válida: instituição, obra, lei, autor identificável.
  • É pertinente? Tem relação direta com o problema do seu texto, não com o assunto em geral.
  • É produtiva? Depois de apresentá-la, você consegue dizer o que ela comprova no seu argumento.

As duas primeiras quase todo mundo acerta. A terceira é onde a nota se decide. Uma referência pertinente e legitimada que aparece e some, sem relação com a frase seguinte, não conta como repertório produtivo: conta como enfeite.

Como encaixar no parágrafo

O encaixe tem três movimentos curtos, nessa ordem:

  1. Afirme primeiro. Diga a ideia que você vai defender naquele parágrafo.
  2. Traga o repertório. Apresente o dado, a lei, o conceito ou a obra, em uma frase.
  3. Explique a ligação. Mostre por que aquilo que você trouxe sustenta a sua afirmação.

Compare. Sem o terceiro movimento: "A educação é um direito. Segundo a Constituição Federal, a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Dessa forma, o problema persiste." A citação está certa e não fez nada.

Com o terceiro movimento: "A desigualdade no acesso à escola contraria o próprio desenho do país: a Constituição define a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, o que significa que a ausência de vaga não é um azar individual, e sim uma obrigação não cumprida. Tratar o problema como falha de esforço pessoal, portanto, inverte a responsabilidade."

A diferença não é de erudição, é de uso. O segundo exemplo transforma a referência em argumento.

Monte um repertório pequeno e versátil

Não é preciso decorar quarenta referências. Cinco ou seis bem escolhidas cobrem quase todos os temas que o Enem costuma propor, porque os temas giram em torno de poucos eixos: desigualdade, acesso a direitos, tecnologia, saúde, meio ambiente, trabalho e representatividade.

Para cada referência que você escolher, escreva em uma linha o que ela permite afirmar. "Constituição, artigo 6º: lista os direitos sociais, serve para mostrar que o problema é de direito negado, não de falta de sorte." Essa linha é o que você vai usar na prova, não a citação em si.

Depois, teste. Pegue três temas antigos de redação do Enem e force cada referência a servir aos três. As que não servirem a nenhum podem sair da lista. Esse exercício de recuperação ativa vale mais do que reler uma lista pronta de citações.

O repertório que todo mundo usa

Algumas referências se tornaram tão frequentes que deixaram de impressionar: a modernidade líquida aplicada a qualquer tema, o contrato social citado sem contexto, a mesma série de ficção distópica usada como prova de qualquer coisa.

Elas não estão proibidas, e não custam ponto por serem conhecidas. O risco é outro: quem recorre ao clichê costuma usá-lo sem o terceiro movimento, justamente porque a referência veio pronta e não foi pensada para aquele tema. Se você usar uma delas, use com o mesmo rigor de uma referência nova.

Na hora da prova

Os textos motivadores da prova não são repertório: eles são o ponto de partida comum a todo mundo, e copiá-los pode zerar a redação. Mas eles ajudam a lembrar de que eixo o tema trata, o que acelera a escolha da referência certa no rascunho.

Dois repertórios bem usados, um em cada parágrafo de desenvolvimento, bastam. Empilhar quatro citações num parágrafo não eleva a competência 2 e rouba espaço da análise, que é o que a competência 3 avalia.

O que isso muda para mim

Repertório não é o que você sabe, é o que você consegue usar sob pressão, em trinta linhas, a favor de uma ideia específica. Isso muda o estudo: em vez de colecionar citações, colecione ligações entre uma referência e o tipo de afirmação que ela sustenta.

O resto dos critérios de correção está no guia da redação do Enem, e o fechamento do texto, com os elementos que a banca procura, está em proposta de intervenção.

Fonte

Inep: página oficial do Enem

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